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Livros que conheci: Stephanie Garcia

ago. 5, 2020 1 comments


Quando o mundo cai por terra, os livros ajudam-nos a ficar de pé, como alguém que nos segura a mão do outro lado do mundo.

Na caixa de correio encontra-se uma embalagem de cartão retangular que contém um livro de capa dura, gasta, lombada vincada, páginas dobradas. Não é o primeiro que recebo nestas lastimáveis condições– cheiro-o e já o adoro.

Encomendar livros tornou-se num hábito recente. Nunca sei como vêm. Se a capa vai estar intacta, se terá uma página rasgada, é sempre uma surpresa. Já tinha comprado em segunda mão antes, ao passear pelas ruas de Lisboa, mas os tempos atuais são de confinamento e somos obrigados à escolha online. Poder encomendar de qualquer canto do mundo traz um entusiasmo completamente novo. Para contrabalançar o preço dos portes, decidi comprar os livros considerados em “piores condições”. Assim que chegou o primeiro, apercebi-me que esse julgamento era muito mal feito.

Existem outros amantes de livros que podem discordar, dizer que é uma absoluta blasfémia dobrar e escrever em livros, deixar que se sujem, tirá-los de casa e lê-los na praia onde se enchem de areia. É essa discordância que separa os colecionadores dos leitores: ambos são amantes de livros, mas um quer o livro pelo livro e o outro, o livro pela história.

Quando se compra um livro já lido e relido, compram-se duas histórias. Claro, qualquer uma precisa de um título. A que seguro nas minhas mãos neste momento chama-se Stephanie Garcia.

 A Stephanie vive ou viveu no Arizona e a sua cor favorita é roxo, ou era, quando tinha catorze anos e fazia corações nos pontos dos i e chavetas muito encaracoladas. Levava o livro na mala da escola, e num raro dia de chuva, ele molhou-se e ficou para sempre com as páginas onduladas.

Hoje, tem 25 anos. Os amigos chamam-lhe Steph e é florista. Já sabe todas as plantas de cor, de tanto que as sublinhou com o marcador lilás. Então, deixou de precisar de uma obra tão básica e pô-la à venda num site de livros em segunda mão. Com a quarentena, deixou de poder trabalhar na sua loja local e precisava de mais dinheiro para pagar a renda do pequeno apartamento onde vive com o seu gato. Tem um jardim caseiro de ervas aromáticas no parapeito e olha para elas enquanto pratica desenho. Pelos rabiscos de plantas à margem das páginas, ainda tem muito que aprender.

…Ou não. Steph aprendeu desenho científico no curso de Biologia e hoje trabalha numa empresa que pesquisa formas mais eficientes de hibridizar plantas para o benefício humano. Foi para o curso porque queria um trabalho em que pudesse fazer do seu amor por plantas algo rentável. Quando tira a bata branca e luvas, volta para sua casa, lado a lado a casas exatamente iguais. O seu namorado está já na cozinha a fazer o jantar, enquanto um labrador retriever lhe salta para as pernas. Ela senta-se no sofá e suspira com um sorriso.

Ou …se calhar Steph nem se lembra de gostar de botânica quando era mais nova. Os colegas eram cruéis como são os jovens de 14 anos, não percebiam porque gostava de plantas e sob a pressão, ela desistiu.

As anotações param a meio do livro.

Steph mudou-se para Nova Iorque e arranjou trabalho num escritório, deixando as suas plantas no quarto de criança juntamente com um livro que não era comum ser lido aos 14 anos. Um dia, a mãe encontrou-o ao renovar o quarto e vendeu-o.

…Ou ela simplesmente não gostou do livro.

Numa página, a Steph sublinhou a palavra “lua” quatro vezes a lápis. Deixou-me uma receita de chá de lavanda e camomila - deve gostar dele com mel. Fez uma chaveta na página que fala das propriedades naturais do mel. Quero acreditar que bebe a chávena de chá comigo, no outro lado do mundo.

Na verdade, penso que Steph já tinha aprendido tudo o que tinha a aprender com este livro quando o passou à próxima pessoa que quisesse aprender com ele. Todos nós gostamos de passar o nosso conhecimento aos outros. Se não quisesse que eu aprendesse com as notas dela, tinha-as apagado. Também deveria passar o livro para a próxima pessoa que o quiser, com as minhas próprias notas.

Pergunto-me o que aconteceria. Podiam pensar que era uma médica, com a minha letra rabiscada e ilegível. Misturar-me-iam com Steph numa só pessoa? Será que eu estou a misturar a Steph com alguém? Se calhar a Steph não é so Stephanie, é Steph, é Rita, é Charlie, é Josh, é Thomas, é Abdul, é Lili, é Eugénia, é Francis, é Daniel, é Gina, é Hugh, é Iris, é Keira, é Maria, é Nyombi, é Oscar, é Pauline, é Quentin, é Uza, é Vanya, é Will, é Yoo-ji, é Zira, e olho para todos nós entre o papel vindo das árvores e a tinta que inventámos no início dos tempos, todos em casa, a olhar para as páginas e esperar que nos deem uma resposta, um conforto neste tempo de tragédia.

Se calhar (e só se calhar), somos todos livros, com a capa rasgada, coluna dobrada, páginas molhadas e passagens escrevinhadas – e adoro-nos.


Comentários

  1. Adoro as tuas crónicas. Devia de escrever mais este género jornalistico.

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