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Gramática Não-Binária

out. 23, 2020 0 comments

Abordamos o assunto da necessidade da adição de pronomes neutros à língua portuguesa para a inclusão de pessoas não-binárias.

Nota: A autora deste artigo não se identifica como não-binárie. Este artigo foi escrito a partir da sua experiência nas redes sociais e interação com pessoas não-binárias, para abordar o tema importante de pronomes. Uma reportagem a dar voz a não-bináries está na sua fase de planeamento e será realizada pós-covid.

Pessoas não-binárias existem. Identidade de género é algo real e todos a expressamos no dia a dia. Temos a tendência de expressar apenas feminilidade ou masculinidade, mas esquecemos que existe ainda adroginia, quando alguém não cabe nem no feminino, nem no masculino. A identidade (de género ou não) é algo natural e necessário ao ser humano. Todos nós precisamos de saber quem somos e expressá-lo. 

É pertinente distinguir género de sexo. Sexo é definido pelos nossos genitais e a nossa biologia. Este pode ser sexo feminino, masculino, ou intersexo, no caso de pessoas nascidas com cromossomas tanto femininos como masculinos. Género é definido por nós mesmos, sendo uma convenção social, um conceito criado para conforto e ordem na sociedade, como a ideia de dinheiro ou matemática. 

Pessoas não-binárias são definidas por não se identificar com a binária do género, ou seja, nem como homem, nem como mulher. Começou nos anos 90, com o termo mais abrangente genderqueer, pessoas que não estavam dentro das normas de género, independentemente de como se identificavam. Mais tarde, foi criado o termo género não-binário (non-binary, encurtado para emby) para as pessoas que, cabendo nas normas de género ou não, identificam-se como estando fora dos géneros binários.

Esta identidade de género começou a ser normalizada nos Estados Unidos da América com as redes sociais, em que pessoas se começaram a identificar com os pronomes neutros they/them. Quando esta identidade chegou a Portugal, muitas pessoas se sentiram finalmente bem com o seu género, que antes não conseguiam expressar dentro da binária. Passaram a utilizar os pronomes neutros em inglês online, mas offline, a falar português, criou-se um problema: na atual gramática portuguesa não existem pronomes para além dos femininos ou masculinos.

Antes que seja argumentado que "a gramática é assim, o correto é ele e ela": a língua está em constante transformação. A gramática que utilizamos hoje não é a mesma gramática que utilizávamos 20 anos atrás. A linguagem evolui de acordo com as necessidades comunicativas e conforto da sociedade. Quando esta sociedade evolui, a língua precisa de evoluir com ela.

A criação de pronomes não-binários é uma necessidade. Disforia de género é uma experiência real para pessoas não-binárias que traz sofrimento. Esta é desencadeada por pessoas serem tratadas como o género com o qual não se identificam. Sabendo da existência de pessoas não-binárias, que merecem sentir-se tão confortáveis como todas as outras pessoas, a criação de pronomes não-binários em português é uma necessidade. 

Para o argumento "mas o género não nos define", quero relembrar que a experiência de um individuo não é a experiência de todos. Tal como alguém pode ter orgulho em ser mulher, orgulho em ser homem, pode ter orgulho em não ser nenhum, pode não achar o seu género algo de que se queira orgulhar. Cabe-nos a nós, como seres humanos, demonstrar empatia pelo outro, compreender a sua perspetiva e respeitar o que é importante para este.

Agora, indo ao assunto da gramática não-binária.

Fazer da gramática portuguesa mais inclusiva a pessoas não-binárias não é missão fácil. Estamos a falar de uma língua que atribui pronomes femininos ou masculinos a animais, objetos, comida, tudo. Claro, aqui o nosso objetivo não é substituir os pronomes destas coisas (apesar de não terem género) - não há necessidade de o fazer, não incomoda um grande número de pessoas psicologicamente. As palavras que necessitam ser mudadas são apenas aquelas pertinentes ao indivíduo, ou seja, pronomes, adjetivos, profissões e quaisquer outros termos que se enquadrem nessa condição.

A vogal favorita de pessoas não-binárias é o E. Uma das coisas com que geralmente concordam é que palavras com E no final soam adroginas. Parece haver um concordo geral que essa substituição da última letra por E é a melhor opção quando nos referimos a pessoas não-binárias. Por esta regra, "lindo" ou "linda" ficaria "linde", "professor" ou "professora" ficaria "professore" , "obrigado" ou "obrigada" ficaria "obrigade" e assim segue a regra para outras palavras do mesmo tipo. 

Apesar de os termos singulares serem concordados pela comunidade, os plurais não. O masculino ser utilizado para abordar um grupo de pessoas de vários géneros surgiu como um problema. Há pessoas que pensam que o plural devia mudar para o mais neutro, passando "todos" a ser "todes", para ser mais inclusivo. Outras pessoas não-binárias não se sentem incomodadas pelo plural ser masculino. É uma discussão a ser tida dentro da comunidade e a ser decidida por esta, visto que as alterações na gramática são feitas para o conforto da mesma.

A substituição da vogal que indica género funciona em palavras que terminam em o/a, mas com pronomes fica mais complicado devido ao E já ser utilizado para o pronome masculino Ele/Dele.

No início da introdução de pronomes neutros nas redes sociais, era utilizado Elx/Delx para exprimir ambiguidade de género. Infelizmente, estes pronomes são de difícil leitura devido a não acabarem com uma vogal, e eram impossíveis de ler na internet para invisuais. Foi então proposto o Elu/Delu, mas certas pessoas sentiam que essa forma soava demasiado masculina. Outra sugestão para essas pessoas seriam então o El/Del (lido él/dél, como a letra L), visto que a ausência da letra que determina o género do pronome implica que esse não tem género. De acordo com a escolha feita, o U ou o E seria utilizado em todas as outras palavras.

Acaba por ser isso mesmo: uma escolha. Uma escolha que é apenas das pessoas não-binárias. Mais ninguém. Se não vives as mesmas experiências que um determinado grupo de pessoas, não tens dizer nas escolhas que influenciam estas experiências. Apenas tens que respeitar.

Sejam não-bináries ou não, se querem que pronomes neutros passem a fazer parte da língua portuguesa oficialmente, estes têm de ser decididos e normalizados. Algo só se torna parte da língua quando é utilizado por um grande numero de pessoas no quotidiano. Usem os vossos pronomes, falem das pessoas com os pronomes corretos, discutam o que é melhor dentro da comunidade.

Idependentemente dos pronomes neutros que no futuro (daqui a muitos anos, Roma não se constrói num dia) serão oficiais na lingua portuguesa, isso não invalida a existência de quaisquer outros pronomes. A identidade de cada um é algo em constante mudança e é essencial para a saúde mental do ser humano, por isso, merece sempre respeito e boa educação.

Se utilizas os pronomes errados de alguém simplesmente porque não compreendes as experiências não-binárias e u queres magoar, mesmo que a pessoa te tenha magoado a ti, lamento informar: és uma má pessoa. Se te diz o nome pelo qual prefere ser tratade, os pronomes que prefere, as palavras que u incomodam, o ato mais humano é respeitar para o bem estar psicologico dessa pessoa, mesmo se não se compreender - demostrar compreensão e simpatia.



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