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Samhain - o feriado das fadas, santos, mortos e abóboras

out. 30, 2020 0 comments

 


Neste artigo abordamos o Samhain, o feriado pagão que está nas origens do Halloween: como era festejado, porquê, e como se celebra hoje.

Todos conhecemos o Halloween, a noite em que os espíritos podem vir à terra, em que crianças se disfarçam do que querem, pedem doces e pregam partidas. Outros, mais cristãos, celebram o Dia-de-Todos-os-Santos, para honrar todos os santos mártires, em que as crianças pedem pão porta a porta. Mas de onde veio originalmente este feriado tão ligado à celebração dos mortos e espíritos? 

Não é de espantar que as bruxas e gatos pretos sejam tão associados ao Halloween, visto que a versão original deste feriado, o Samhain, é celebrado na modernidade por bruxos e pagãos. Para estes, não há partidas, não há medo, não há pão, nem doces - é um dos feriados mais importantes e é celebrado solenemente. Há o preconceito que bruxos e pagãos usam este feriado para fazer sacrifícios e falar com os mortos através de tabuleiros oujia, que são simplesmente erradas e alimentam o preconceito contra crenças não monoteístas e espiritualidade. Vamos abordar como é celebrado este feriado e de onde veio.

As estações Celtas 

Este feriado existe na Europa desde os Celtas, que o chamavam de Samhain (pronunciado Sou-in). Começou por ser apenas para celebrar a mudança de estação - da quente para a fria. Encontramos marcas desta celebração em muita literatura Gaulesa. Já na altura escreviam ser a época mais importante, em conjunto com o Beltano, marcando a renovação do ano. 

Fogueiras eram acesas, guerras paravam, vinho era bebido. Escolhiam os animais que iriam servir de comida para o inverno (é daqui que vem o sacrifício animal, que obviamente já não é feito, não há necessidade), faziam rituais de divinação, em esperança de saber o que lhes aguardava na época em que nada nasce da terra. Era também visto como uma altura em que as fadas estavam mais ativas, e deviam ser honradas para evitar a sua raiva, que podia levar à morte dos animais e apodrecimento da colheita. Eram feitas ofertas às fadas de leite e pão, e as mais perigosas eram afastadas com disfarces monstruosos usados pelos jovens. Também honravam os mortos, pois acreditavam que como tudo na terra começava a morrer, os mortos conseguiam regressar à terra. Deixava-se lugar na mesa para eles.

O Samhain começou como uma apreciação pelo pouco que se tinha, o medo do frio que matava e a saudade dos que tinham morrido. Nada mais.

Fadas do Samhain

Sendo que o feriado tem origem Celta, existem muitas fadas associadas ao Samhain. A mais conhecida é o Pooka, uma fada que muda de forma, entre humana e animal, que inspirou a personagem Puck (Trasgo) na peça de Shakespeare. Esta fada era descrita como completamente escura com os olhos brilhantes como fogo laranja. Roubava crianças e seduzia pessoas para irem consigo numa viagem da qual nunca mais voltariam. O Pooka podia ser considerado uma representação da própria morte. Era associado a amoras, acreditava-se que quando a última destas apodrece-se, os Pookas apareciam. Afastavam-se com algo tão brilhante como os seus olhos (daí as lanternas) ou espalhando sementes nos jardins - o Pooka, encontrando vida pronta a germinar, ia embora. Ver um Pooka era sinal de uma morte eminente.
Também existia a crença que os Tuatha de Danann, o povo feérico da Deusa Danu, pouco antes do Samhain, abençoavam parte das colheitas para durarem o inverno todo. As colheitas que apodreciam pertenciam às outras fadas e não deviam ser tocadas.

A crença geral era que do Beltano (maio) até ao Samhain (outubro), eram mais ativas fadas benevolentes, e de outubro a maio, as fadas malevolentes. Isto está de novo ligado às estações e à escassez de comida durante o inverno, que na altura era visto como maldição.

De pagão a cristão

Quando o cristianismo se tornou na religião popular, muitos dos feriados pagãos celtas foram adaptados à religião cristã. Na Enciclopédia da Religião conseguimos ler "O Samhain continuou a ser uma festa popular entre os povos celtas durante todo o tempo da cristianização da Grã-Bretanha. A Igreja britânica tentou desviar esse interesse em costumes pagãos acrescentando uma comemoração cristã ao calendário, na mesma data do Samhain". 

Esta celebração retira o fator da natureza e das fadas, celebrando apenas os Santos e mortos e introduzindo a prática de ir pedir "pão por Deus", em que crianças vão porta a porta pedir comida e dinheiro. Apesar desta tradição já existir em pequena escala quando o feriado foi criado, só ganhou força em Portugal depois do terramoto de Lisboa, que coincidiu com o Dia-de-Todos-os-Santos. As pessoas apreciaram de novo o pouco que tinham, pedindo comida de porta em porta e agradecendo a Deus por ela.

A noite dos espíritos

Se o cristianismo deixou para trás a parte espiritual e natural do Samhain, o Halloween ficou com ela. All Hallows Eve, traduzido para Véspera de Todos os "Santos"(a tradução literal é "consagrados"), é celebrado como uma mistura do Samhain e Dia-de-Todos-os-Santos. Em Portugal, é conhecido como Dia das Bruxas exatamente por ter tantas crenças pagãs ainda imbuídas na sua celebração, e alguns cristãos creem ainda ser um dia de azar por acontecer antes do feriado religioso. 

O Halloween começou nos Estados Unidos da América como uma data a ser temida. Jovens a aproveitar-se da celebração (tanto a pagã como a cristã) vandalizavam ruas inteiras vestidos como monstros, como que a gozar com as velhas tradições e crenças. Uma mulher, Elizabeth Krebs, decidiu evitar este vandalismo criando uma festa com doces, música e partidas controladas, deixando os jovens cansados e felizes. Esta forma de festejar (e prevenir más celebrações do dia) expandiu-se por toda a América, rapidamente chegando a outros continentes. Conta-se ainda a história de o Halloween ser o dia em que espíritos e monstros conseguem interagir connosco, inspirado pelas crenças pagãs. Abóboras "Jack-o-Lantern" tornaram-se simbólicas deste feriado, pois já nos tempos celtas acreditava-se que lanternas assustavam as fadas, que era o seu termo para espíritos.

A Roda do Ano dos bruxos

O Samhain passou a ser celebrado por bruxos quando Gerald Gardner, o autor que popularizou a Wicca, adaptou as celebrações celtas à prática da bruxaria. Fez a Roda do Ano, que tinha não só as grandes celebrações como Samhain e Beltano, mas também os equinócios, marcando o Samhain como o início do ano. Estas celebrações são uma forma de apreciação da natureza, podendo ou não envolver Deuses, ou espíritos. A Wicca influenciou diretamente a bruxaria moderna, por isso, alguns bruxos, apesar de não se considerarem Wicca, celebram os feriados da Roda do Ano separadamente das crenças e regras Wiccanas, celebrando de acordo com as suas crenças pessoas, religiosas ou não, em conjunto com a sua prática.

Na bruxaria é dado mais destaque à cozinha e à divinação, sendo típico fazer vários doces com frutos da época com intenção de apreciar a natureza e trazer um bom próximo ano. Agarram nas suas cartas de tarot, ou pêndulos, ou qualquer outro método de divinação e vêm o que o Samhain têm guardado para eles. Alguns honram os seus ancestrais ou guias espirituais e fazem oferendas de velas ou comida. Fazem um feitiço para deixar ir algo que já não querem na sua vida, ou trazer algo de novo. Alguns celebram o Samhain sozinhos, outros com o seu Coven. Outros ainda, celebram à sua maneira, apenas agradecendo, apreciando o que o universo dá. Não existe uma única forma de celebrar na bruxaria - cada um adapta à sua prática e crença - e nenhuma forma é mais correta que outra.

O Samhain 2020 será um feriado ainda mais especial para bruxos, visto que a Lua estará cheia, a fase em que tem mais energia associada ao fim de ciclos. Parece que os astros se colocaram em ordem para a celebração, uma oportunidade que não surge todos os anos. 

Samhain hoje

Ainda celebrado por neopagãos e praticantes espirituais, o Samhain é um dos sabbats sagrados da Roda do Ano. É muito celebrado por praticantes de bruxaria, considerado o ano novo dos bruxos. "É um tempo de morte e renascimento" explica Skye Alexander no seu livro Guia Moderno da Magia. A celebração guarda a essência do feriado celta misturado com o da Wicca, com pequenas mudanças dependendo da crença de cada um e tempos modernos. As práticas mudaram, mas a essência ficou.

É um dia guardado para honrar os nossos ancestrais, as pessoas que perdemos. Alguns continuam a ter a crença que espíritos e fadas estão mais ativos e tentam comunicar ou proteger-se destes. Pratica-se a divinação, fazendo leituras mais extensivas que o normal acerca do nosso futuro para o ano seguinte. A roupa continua a ter significado, sendo que muitos se vestem como a pessoa que querem ser no ano seguinte. O sentimento geral é o de deixar velha energia ir embora, e nova energia chegar.

Basicamente, um típico Samhain nos dias modernos começaria honrado os mortos, colocando fotos de familiares já falecidos no altar e acendendo uma vela para eles. Faz-se uma refeição com os alimentos da estação. Faz-se um ritual para largar energia negativa do ano velho. Uma festividade não muito diferente de todas as que conhecemos.



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