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Ancestrais, guerreiros e natureza - O que é o paganismo lusitano?

set. 14, 2022 1 comments


O paganismo tem muitas vertentes, e uma das mais raras é o paganismo lusitano. Neste artigo, exploramos o que define um pagão lusitano, e potenciais práticas que alguém com essa religião teria. 

Desde o início da minha série de vídeos de artigos sobre os Deuses Lusitanos que recebo essa questão: afinal, o que define alguém que se considera pagão lusitano? Comecei a explorar essa ideia com o podcast Pagã Lusitana, mas uma resposta mais direta continua a ser necessária. Afinal, em que acredita um pagão lusitano/ibérico, como venera os seus Deuses e passa o seu dia a dia?

A definição mais simples de um pagão lusitano é alguém que venera os Deuses da antiga Lusitânia, cuja área corresponde hoje a parte da Península Ibérica. No entanto, cada pagão é individual, com as suas crenças individuais e práticas individuais. Vamos falar das mais populares.

Lusitano vs. Ibérico vs. Português

Os termos lusitano, ibérico e português são muitas vezes utilizados como sinónimos para falar deste tipo de paganismo, no entanto, o termo utilizado marca pequenas diferenças na prática. Por exemplo, pessoas que usam o termo "ibérico", referente à Península Ibérica, tendem a ter um entendimento reconstrucionista desta religião levando em consideração que o panteão lusitano não era venerado consistentemente pela área que os romanos designaram de Lusitânia, logo este não deve ser junto como "lusitano", mas sim falado de forma mais geral como um panteão da Península Ibérica. "Ibérico" também é um termo utilizado para evitar a confusão que traz o termo "Lusitano". 

Pessoas que usam o termo "lusitano" tendem a ter uma perspectiva revivalista no seu paganismo, com um foco nos Deuses antigos e práticas antigas e rejeição máxima da influência romana nos mesmos - isto é, se a pessoa estiver utilizar lusitano no seu sentido de ser algo da Lusitânia, e não como algo português. A palavra "lusitano" é muito utilizada na literatura e conversa popular como sinonimo de português, o que leva a que muitas pessoas levem o termo de "pagão lusitano" a significar o mesmo que "pagão português" e que estes Deuses são apenas venerados em Portugal e são dos portugueses, e que os lusitanos são "nossos ancestrais". 

Eu utilizo a palavra "lusitano" e "português" na minha prática mesmo para fazer essa distinção. A minha prática inclui tradições portuguesas porque eu sou portuguesa, e inclui os Deuses Lusitanos porque gosto da sua mitologia e ligação com a terra em que habito. Mas as duas palavras não são sinónimos. 

No fim de contas, o termo que deves utilizar para definir este paganismo é decisão tua, se queres utilizar ibérico ou lusitano, utiliza. Estou apenas a dar uma explicação do que cada termo tem implicado até agora.

Culto aos ancestrais

Não, os lusitanos não são nossos ancestrais. Existe a ideia errada de um gene lusitano e que somos descendentes diretos dos lusitanos, quando tal não é possível. Primeiro, nós nem temos a certeza que os lusitanos seriam a sua própria etnia (opiniões de historiadores e antropólogos apontam mais para não o serem, em vez disso, serem sim um povo com uma mistura de outras etnias), e depois, etnia é um conceito social, não biológico. 

Dito isto, os lusitanos não são completamente desconectados de Portugal, pois partilhamos terra com eles. No paganismo, a terra é um conceito de importância, e a energia que esta carrega não deve ser ignorada. Os lusitanos são nossos ancestrais no sentido em que a sua energia habita a terra que nós agora habitamos. 

Tal como em outros tipos de paganismo, como por exemplo, o nórdico, o culto aos ancestrais é um dos elementos do paganismo lusitano. Eu traduzo isto na ideia de honrar pessoas da família que vieram antes das gerações que ainda estão vivas, devido a ser devota de Nabia, uma Deusa da família. No entanto, o culto aos ancestrais pode ser culto a personalidades históricas sábias, pessoas que não sejam da nossa familia mas tenham tido um grande impacto na nossa vida, ou personalidades da terra de que nascemos - é um pouco um culto aos mortos que nos guiam em geral.

Guerreiros e morte

A morte é um tema recorrente nos Deuses da Lusitânia, pelo que faz também parte do paganismo lusitano. Honrar a morte pode traduzir-se em honrar Deuses da morte, ou honrar os mortos, que se cruza com o culto aos ancestrais. A morte é um evento natural da vida, e um que deve ser respeitado tanto quanto a vida. Cada pagão terá a sua própria perspetiva sobre a morte: seja de destino, de castigo, de final ou de desconhecido, ela é sempre uma constante que faz parte da natureza como tudo o resto. Não é coincidência que maior parte dos Deuses associados à morte são também associados à natureza. 

Outro tema recorrente dos Deuses lusitanos é o da guerra. Todos estudamos os lusitanos como um povo guerreiro, em constante batalha e com diversas estratégias. Temos até a ideia do "espírito guerreiro" e "guerreiro lusitano" na nossa cultura, que é aquela que mais associamos a este povo. Guerreiro no seu contexto moderno não significa necessariamente guerra, mas sim alguém que não desiste e luta pelo que acredita. Um pagão lusitano seguirá esse valor também, de não se deixar ir abaixo e lutar sempre pelos seus valores e vida. Maior parte das vezes este espírito guerreiro não se traduz em lutas físicas, mas sim espirituais, emocionais, lutas de vida. Pode até ser uma luta connosco mesmo.

É importante adicionar que a ideia da morte e dos guerreiros não é uma que se traduza sempre naquilo que consideramos "positivo" e que leituras demasiado positivistas destes conceitos acabam por afetar o equilíbrio da nossa prática. 

Amor à natureza

Todo o paganismo tem um foco na natureza, mas o lusitano, tal como o celta, tem um maior foco ainda. Para os antigos lusitanos esta apreciação pela natureza vinha do facto que esta era o seu único meio de sobrevivência, completamente dependentes da fertilidade do solo e tempo. No mundo cheio de tecnologia com mais comodidades e meios, é fácil esquecer que ainda continuamos dependentes da natureza. É por isso que devemos continuar a apreciar tudo aquilo que ela nos dá, sem a levar como garantida ou substituível por criações humanas. Até nós somos natureza, e o nosso bem estar está interligado com a mesma.

Aqui falamos de toda a natureza: não apenas as flores, o sol, os animais, mas também a lua, as ervas daninhas, os insetos rastejantes. Não lamentar quando a terra seca ou inunda, mas sim apreciar esses eventos como um recomeço, a terra a preparar-se para um recomeço. Este amor à natureza extende-se à humanidade, e amar o nosso corpo, mente e alma, bem como as pessoas à nossa volta (claro, se elas demonstrarem amor também, um pagão lusitano não tem medo de uma luta quando esta é necessária). 

O sacrifício da natureza também é comum, antes feito através do sacrifício animal. Este sacrifício sempre foi algo simbólico, de oferecer o que a natureza nos dá, uma das nossas necessidades ao Deus a que somos devotos. O jejum, geral ou de um alimento específico, é uma das formas de demonstrar a nossa graça perante o que nos oferece a natureza - o ato de não tirar apenas para nós, mas também devolver as coisas à terra de onde vieram. 

Os Deuses venerados

O que cada pagão lusitano entende como um "panteão lusitano" muda de pessoa em pessoa. Alguns consideram todos os Deuses venerados na antiga Lusitânia, outros apenas um grupo específico, uns apenas aqueles que não eram venerados por celtas ou gregos, e até há pessoas que veneram apenas um ou dois à sua maneira. Num mundo já tão afetado pelo monoteísmo, esta é a interpretação mais comum do paganismo: a escolha de um Deus pagão para prestar devoção, sem deixar de acreditar nos outros Deuses necessariamente, mas com mais foco naquele Deus. Aliás, esta forma de devoção nem era incomum no mundo antigo, pois existiam muitos Deuses centrados em locais, regiões ou tribos. 

Os Deuses mais populares entre neo-pagãos são Endovélico, Ataegina, Trebaruna, Nabia e Reve. Endovélico é venerado como Deus da vegetação e cura, e considerado por muitos como o Deus dos Deuses. Nesse papel também é colocado Reve, o Deus das montanhas e tempo atmosférico. Ataegina é curiosamente venerada de forma semelhante a Proserpina no politeísmo romano, devido aos Romanos a terem sincretizado com esta Deusa, criando uma Ataegina donzela diferente daquela venerada pelos lusitanos, que teria uma vertente muito maior do submundo e da morte. Trebaruna é venerada por neo-pagãos como Deusa da guerra, apesar de para os lusitanos ser uma Deusa da casa, e Nabia é venerada como Deusa da água e Deusa-mãe. Estes são os entendimentos gerais destes Deuses, mas estão longe de ser os únicos.

No fim do dia, a crença é sempre definida por quem a tem. Podemos dar estas noções gerais dos valores que um pagão lusitano terá, mas nem todos os pagãos são iguais, e é impossível alguém sentir a sua religião de forma igual ao outro, pois as nossas crenças são afetadas pelas nossas vivencias e personalidade. Cada um adora como quer, e as nossas crenças vão evoluindo connosco. Amar esse processo da evolução da nossa religião e forma como interagimos com os Deuses é parte da beleza de ser pagão.

@probablysininho Já me perguntaram algumas vezes por DM, aqui está o esclarecimento 💚 #tiktokportugal #DeusesLusitanos #paganismo ♬ Wes Anderson-esque Cute Acoustic - Kenji Ueda


 

Comentários

  1. São posts como estes e vindo de ti que me fazem querer seguir ciências da comunicação para estudar e um dia trabalhar na mesma área que tu hoje exerces. A tua voz é honestamente bastante valorizada e alvo do meu interesse!
    Só queria deixar o meu comentário antes de terminar o artigo!

    ResponderEliminar

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