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Poesia de redes sociais - arte, ou morte da cultura?

nov. 27, 2020 2 comments

 


Neste artigo, falamos da famosa instapoetry - poesia de redes sociais que levantou a questão do que é ou não poesia. 

Como definir poesia? Um género tão distinto que com poucas palavras, nos faz sentir tanto como um livro faria. O dicionário Priberam define poesia como "arte de fazer obras em verso" e "o que desperta o sentimento do belo". É a poesia então apenas um conjunto de versos que nos fazem sentir? Sim, mas podemos de novo perguntar: O que são versos? Já dizia a nossa Florbela Espanca "Versos! Sei lá o que são versos...", e logo a seguir, no seu poema, responde à pergunta: "Pedaços de sorriso, branca espuma,/Gargalhadas de luz, cantos dispersos,/Ou pétalas que caem uma a uma...", em suma - versos são poesia, e poesia são versos. 

A modernidade fez-nos questionar de novo, como questionava Florbela Espanca, o que define um verso. Pesquisando no Instagram ou Twitter por "#poesia", o que encontramos primeiro, não serão os versos de Florbela Espanca, ou de um dos heterónimos de Pessoa. Encontramos uma frase dividida ao meio sobre o hambúrguer que o Zé comeu ontem, ou, com sorte, sobre o elástico que uma mulher deixou no balcão da cozinha antes de partir e deixar o triste do Zé sozinho. Às vezes o Zé é Maria, e escreve sobre a sua vagina e em como os homens são muito maus e feios. Sempre de forma sucinta, sem rima, sem palavras "chiques", sem atenção à métrica, nem quadras, nem nada que aprendemos no secundário quando estudamos poesia. 

O que me motivou a escrever este artigo, foi um destes poemas de Instagram que era tão profundo, que me fez questionar a vida. O poema era:


"There is a full-length

head hair

stuck in my

butt crack

I am choosing to ignore it"

- (Look I Bought Plants, Eva Victor e Taylor Garron)


Para os que não sabem inglês, traduzo livremente:


"Está um comprido

cabelo

preso na minha

racha do rabo

Estou a ignora-lo"


Verdadeiramente profunda esta poesia. Isto claro, não é para dizer que a poesia precisa de ter sempre um significado maior, mas, dizer que se tem um cabelo preso no rabo entra num nicho poético tão estranho que nos faz questionar se isto é realmente poesia. 

É pertinente dizer que nem todos os "poemas de redes sociais" são deste género. Aliás, maior parte, apesar de serem sucintos e "frases em verso", fazem-nos sentir como faz a poesia clássica. O problema, não é este género de poesia existir, mas sim que, por ser maioritariamente partilhada nas redes sociais, todos a começaram a escrever, independentemente de talento poético. Passou a ser visto como algo que qualquer um consegue devido à sua natureza curta e simples. A verdade: a arte de fazer algo parecer simples, não é nada simples. 

A poesia de Instagram nasceu de uma necessidade. Os poetas precisavam de se adaptar às redes sociais. As redes funcionam com conteúdo curto e facilmente digerível - logo, foi isso que a poesia se tornou. Foi popularizado por Rupi Kaur, poeta canadiana cujos poemas têm como tema principal feminismo e amor-próprio. O seu primeiro livro, "Leite e Mel", foi um sucesso, com imensas fotos dos poemas todos os dias ainda hoje partilhadas no Instagram. Rapidamente, todos fizeram um novo perfil de Instagram para partilhar as suas pequenas frases poéticas - inclusive, autores de livros em prosa juntaram-se à moda, como Pedro Chagas Freitas. Instapoetry, foi como ficou denominada.

Com a ascensão da instapoetry, muitos críticos colocaram-se a mesma questão que aqui temos: Isto é poesia? A principal crítica era alguém fazer em poucos segundos o que "verdadeiros poetas" demoram anos, até décadas, a estudar e aperfeiçoar, fazendo a arte da poesia parecer algo muito menos erudito. Comparado até com o capitalismo, pois a poesia passou a ser produzida em massa para as massas. 

Como crítica e poeta, tenho um pequeno poema a partilhar com esses críticos. Espero que seja do seu agrado:


Enfiem

esse elitismo malcheiroso

num sítio que eu cá sei

- Beatriz Rosa, poeta, escrito entre as 16:30:20h e 16:30:22h


Capitalismo, caros excelentíssimos, é venderem uma dúzia de estrofes a quinze euros (com sorte) e obrigar os meninos na escola a comprar porque senão vão ser uns idiotas incultos a vida toda.

Instapoetry é o resultado lógico da evolução da sociedade - tanto em termos de tecnologia como geracional. Tal como todas as coisas geracionais, a geração anterior nunca gosta dela. A mesma crítica foi feita aos géneros de poesia que hoje fazem parte da nossa cultura, a mesma crítica foi feita quando a geração Millenial pôs em voga a poesia Slam (e ainda é criticada), a mesma crítica foi feita quando apareceu o rap (que é uma forma de poesia), e a mesma crítica foi feita a Bethoven e Camões e todos esses "artistas eruditos". Essa crítica não vale nada - é vazia e demonstra egocentrismo e ignorância acerca da sociedade à sua volta.

A poesia ter evoluído desta forma e ser escrita por tantas pessoas, é uma reflexão da cultura ter ganho acessibilidade. Muitos poetas não significa que a poesia ficou pior, mas sim que há um maior consumo de poesia, e consequentemente, mais pessoas a quererem participar nela. Instapoetry é o melhor que aconteceu à poesia, pois tornou-se uma porta de entrada para a escrita poética, uma porta que está sempre aberta. Fez da poesia algo acessível e até gratuito a qualquer um, como deve ser, pois a cultura é um direito. Faz parte de uma cultura global, que todos entendem e que nos liga - e no fim de contas, ligar corações, partilhar sentimentos e perspetivas - é esse o objetivo da poesia.

Vão existir poemas maus, tal como sempre existiram. Existem mais poemas maus, porque também existem mais poemas. Mesmo se os poemas são maus ou não, acaba por ser sempre opinião. Quiçá, alguma alma se emocionou ao ler o poema do cabelo preso na racha do rabo. 

Deixem o Zé escrever sobre hambúrguers e raparigas que deixam elásticos, a Maria sobre os homens feios e vaginas, a Rupi sobre amor-próprio, a Florbela sobre os versos. Não importa o tema, existe sempre sentimento. É isso que é a poesia - a arte de sentir. Todos somos poetas. 

Comentários

  1. Tens razão todos podemos ser poetas. É isso que digo aos meus alunos, todos somos capazes de escrever poesia, basta que para isso coloquemos o que sentimos nas palavras.
    A propósito deixo-te com a primeira e última estrófes de um poema de quem te deixou esse gosto pela escrita.

    " Poeta?
    quem disse que eu era?
    só porque gostava
    de voar nas asas
    de alguma quimera?

    (...)

    Poeta,
    só porque a quimera
    faz parte de mim,
    chamaram-me assim,
    quem disse que eu era? "

    In, "Poemas de amar e pensar um pouco"

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