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Isso é só para crianças - A desvalorização dos livros de fantasia

mar. 14, 2021 1 comments


Falamos sobre a desvalorização do género literário de fantasia, especialmente em Portugal, e da ideia que o fantástico é imediatamente infantil ou pouco culto.

Sempre quis ser escritora de fantasia. Desde que sei ler,  as fadas, elfos e dragões foram as minhas histórias de escolha, e ainda hoje aos 21 anos leio histórias com essas personagens. Agora, em vez de salvarem a princesa e descobrirem o poder da amizade, lidam com situações de vida ou morte e com a crueldade do mundo em todo o seu realismo fantástico. Há algo de belo e empático em encontrar a realidade nestas criaturas imaginadas.

Adivinhem então a minha admiração quando ouvi "Fantasia não tem valor literário" vindo de uma professora. Uma professora cuja missão é alimentar o gosto pela leitura dos seus alunos.

O livro escolhido foi O Hobbit, do grande e reconhecido autor de fantasia J.R.R. Tolkien. Está bem que esta obra em específico é a única de Tolkien mais direcionada para jovens, mas eu também tinha 14 anos quando a escolhi para o meu trabalho de Língua Portuguesa. A professora não aceitou, dando a justificação de fantasia ser "um género pouco culto", isto apesar de a obra estar no Plano Nacional de Leitura.

Qualquer pessoa com dois dedos de testa apercebe-se imediatamente da falácia que são ambas as frases desta professora. 

Falemos, então, de Tolkien. Escritor de O Senhor dos Anéis, um dos maiores marcos da literatura fantástica, com mais de 200 milhões de cópias vendidas e cultos de fãs criados em adoração deste mundo fantástico. De acordo com quem pensa como a minha professora pensava, era um péssimo escritor. Não tinha uma ponta de cultura em todo o seu trabalho apesar de ter influenciado a forma como um género é escrito para sempre, apesar de até ter recebido uma Comendação da Ordem do Império Britânico pela sua contribuição na escrita, apesar de ter criado uma linguagem do nada e ter deixado um legado que qualquer escritor inveja. Um péssimo escritor de todos os pontos de vista.

Outros autores aqui podem ser mencionados: J.K. Rowling, C.S. Lewis, Patrick Rothfuss, George R.R. Martin. Escritores péssimos e infantis sem cultura nenhuma.

Portugal é um país que só valoriza o clássico ou o que se assemelha ao clássico - segundo um estudo pela Picodi, os géneros mais populares de ficção são o Romance e Ficção Histórica, com 46% e 37% de leitores respetivamente, sendo que a Fantasia e Ficção Cientifica em conjunto têm 26% de leitores. Notamos esta desvalorização até fazendo uma simples pergunta: quantos autores de Fantasia portugueses conhece? Se for um ávido leitor de fantasia, deve ter dito à volta de três autores, e se for um leitor casual, tenho 100% de certeza que não se lembrou de um. Agora, quantos autores de Romance portugueses conhece? E de Ficção Histórica? Até são demais para contar.

Somos um país preso no passado, que tudo romantiza. Tal como era a professora que me tentou tirar o gosto pela fantasia, somos demasiado sérios e antiquados, sempre a tentar passar esta persona de "adulto crescido" ao resto do mundo. Falta a imaginação, a juventude, a esperança, a empatia. A desvalorização da literatura fantástica não é só uma questão de livros, é uma questão de mentalidade. 

Livros de fantasia adulta são o perfeito equilíbrio entre a maturidade e a criança interior. Até os juvenis mais facilmente ensinam as lições necessárias à vida: é só ver quantos jovens retiraram algo de Os Maias e quantos retiraram algo da saga Harry Potter - garanto que muitos mais aprenderam com o menino com os óculos redondos e cicatriz na testa do que com o anglofanboy incestuoso. O facto de as personagens principais da Fantasia não serem humanas ajuda o leitor a criar empatia para com todo o mundo à sua volta, as suas aventuras desenvolvem a curiosidade pelo desconhecido. Retrata os problemas da sociedade sob um véu de metáforas muito melhor desenvolvido que muitos clássicos e contém tanto romance com aquela estética medieval que tanto adoramos. As culturas e histórias inventadas são um espelho das nossas, mas um espelho mágico, que mostra um mundo alternativo que temos de interpretar. A Fantasia ajuda-nos a olhar para a frente e não para trás. A Saudade é portuguesa, mas não nos faz avançar. O sonho, sim, a imaginação, sim, a criação de novos mundos melhores.

Desafio os leitores a lerem um livro de fantasia esta semana - vão surpreender-se. Aos escritores, tentem criar um mundo fantástico. Façam personagens que não são humanas, mas fazem-nos sentir como se fossem. Criem uma sociedade entre elas, cidades, religiões, hierarquias, história, cultura. Escrevam aquilo que é e aquilo que podia ser. Escrevam fantasia, leiam fantasia e fantasiem um mundo diferente - quem sabe, se todos fantasiarmos juntos, podemos fazer com que o nosso mundo, eternamente ligado a estes mundos fantásticos, se torne fantástico também.

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