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Só é problema quando é gravado - parem de fingir que se importam com bullying

mai. 27, 2021 0 comments

Falamos sobre bullying, a propósito do caso do rapaz que foi atropelado depois de ser provocado por colegas da escola. Mas devemos falar de bullying apenas "a propósito"? É isso que é preocuparmo-nos com bullying?

"Olha, ele está a chorar" disse uma menina de 13 anos na borda da estrada. Todos, decerto, já viram o vídeo nas notícias, mas para quem não viu, um pouco de contexto: um vídeo circulou nas redes sociais, no qual a rapariga a gravar e o seu grupo de amigos seguia um rapaz pela borda da estrada, na tentativa de o provocar. O rapaz, para fugir dos outros, passou a estrada a correr, sem notar nos carros que aí vinham, acabando atropelado. Seguiu-se indignação nas redes sociais, frases de apoio para o menino, frases de ódio à jovem que o seguia e gravava. Começou a conversa sobre bullying que começa sempre que uma criança chega perto da morte devido à provocação dos outros.

O problema não é a menina que seguiu o rapaz, não é o vídeo, não são os jovens, não são as redes sociais. O problema aqui é um maior e mais triste: como todos fingem querer saber de bullying. Parem com o fingimento. Esta conversa dura um dia, no máximo dois. Nas notícias dizem o que fazer se se sofrer de bullying. Põem posteres pelas escolas. Se calhar, até fazem um desenho animado para mostrar aos miúdos numa palestra. Depois, volta ao mesmo: bullying acontece nos corredores, as funcionárias viram a cara, os professores dão um punhado de conselhos, os diretores dizem aos pais "não podemos fazer mais nada a não ser uma suspensão".

Sei desta rotina, pois já a sofri, já tive amigos que a sofreram, vítimas e bullies. Ênfase no "e". Não existe bully que não seja vítima e é rara a vítima que não se torna bully. Um círculo vicioso. 

"A minha filha não é um monstro" disse a mãe da menina. Pois não, é uma criança. Uma criança que aprende com o que vê. É a mãe que é o monstro, é a escola que é o monstro, é a avó e bisavô, é o Ministério da Educação, é a falta de planeamento familiar, é a falta de cidadania, é a falta de democracia, é uma espiral que vai até quando o primeiro homem atirou uma pedra a outro. Atire a primeira pedra quem nunca foi parvalhão aos 13 anos.

Estes comportamentos são consequência direta das falhas da sociedade. Se as crianças virem que vivem num mundo em que filmar alguém a sofrer é considerado piada e fica viral, vão fazê-lo. Diariamente, veem nas redes sociais pessoas a deixar comentários maldosos protegidas pelo ecrã, influencers a mandar indiretas uns aos outros, mesquinhices nos reality shows, quebras de privacidade nas revistas. Percebemos que existe bullying e que este é errado, mas deixamos estas ferramentas de comunicação modernas ser utilizadas da pior maneira. A forma como estas crianças interagem tem relação direta com a forma como nos veem, todos os dias, interagir.

Por isso, mães, pais, televisões, influencers, pessoas a passar na rua, pensem da próxima vez que vos apetecer dizer algo que, se fossem crianças, seria bullying. Nada é sem consequências.

Importar-se com bullying não é um poster, ou uma notícia, ou um vídeo partilhado. É desconstruir os sistemas que deixam o bullying acontecer. Ensinar os pais a ser pais. Falar com as crianças e compreender. Dar acesso a apoio emocional e mental. Quebrar ciclos.

Importar-se com bullying é falar dele, educar para que não aconteça, o ano inteiro. Não só quando uma criança quase morre.

Segundo a APAV, em 2020, 81% das crianças portuguesas sofrem de bullying. Isso são milhões de crianças - crianças como eu era - que não recebem apoio porque não ficaram virais.

Parem de fingir que se importam com bullying. Se se importam realmente, não parem de lutar contra quem deixa o bullying acontecer. O bullying não acontece só quando é gravado.




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