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Violetas Eternas - O olhar Sáfico e a poesia de Safo

fev. 28, 2023 0 comments


A literatura clássica grega é das primeiras estudadas, colocada num pedestal como uma das principais influências de toda a literatura. Académicos destacam autores como Homero, Platão, Heródoto, e muitos outros que têm todos uma característica em comum: são homens. É esta a perspetiva que queremos ter na literatura? Uma perspetiva unifocal, baseada em quem tinha o privilégio de ser ouvido na sua era, condenando as gerações futuras a seguirem sempre vozes igualmente privilegiadas? As obras que ainda hoje estudamos não são um testamento do nascimento da literatura, mas sim de como esta sempre ignorou o trabalho criativo das minorias sociais. 

Vamos relembrar as violetas outrora escritas por uma mão feminina numa pequena ilha, uma mão que, mesmo sabendo a posição em que a sociedade do seu tempo a colocava, se recusou a não escrever. Falamos de Safo, poeta de Lesbos, e da representação da mulher sáfica na literatura. 

Esta introdução pode passar a impressão que implicamos que Safo não é estudada de todo. Tal não é o caso, sendo Safo um objeto de estudos históricos e literários modernos cada vez mais, com novas interpretações e descobertas sobre a poeta. No entanto, não devemos ignorar que o trabalho desta poeta foi parcialmente perdido e quando recuperado, interpretado e analisado sob uma perspetiva distorcida devido ao perpétuo machismo e homofobia existente no estudo da literatura por investigadores masculinos (Balmer, 2018). Temos ainda a vertente de, mesmo em estudos literários e históricos modernos que estudam Safo sem preconceito, tal estudo é maioritariamente feito de um espetro feminista da análise da literatura feminina, que deixa todo o espetro da literatura LGBTQ+ à parte. 

Olhamos para o contexto social e literário de Safo, diferentes interpretações da sua poesia e tentamos produzir uma análise à representação da mulher sáfica, tentando perceber o efeito que a obra da poetisa teve na literatura moderna LGBTQ+ através da criação do conceito do olhar sáfico. Falaremos de representação segundo a noção de Moscovici (1961), mais tarde desenvolvida por Höïjer (2011), da criação de um conceito na mente de uma comunidade sobre dado evento, objeto, ou grupo, ou seja, analisaremos a forma como a mulher sáfica é conceptualizada na literatura, afetando a forma como os leitores entendem esse conceito. 

É pertinente adicionar que, para este trabalho, estaremos a cruzar três traduções dos poemas originais de Safo: duas em inglês, por Josephine Balmer (2018) e Willis Barstone (2011) e outra em português, por Eugénio de Andrade (2021).



A Mulher e a Homossexualidade na Grécia Antiga

O principal obstáculo que encontramos ao falar da mulher na antiguidade clássica, é a história ser contada por aqueles em poder. Isto leva ao apagamento do contributo da mulher — e o impedimento desta contribuir de todo — o que dificulta elaborar trabalhos sobre a mesma devido à falta de informação registada. Aquilo que sabemos vem do testemunho de oradores homens, que descreviam certas partes do dia a dia da mulher e as suas relações nos seus argumentos (Curado, 2008). Sabemos que as mulheres eram consideradas de pouca importância social e por vezes divididas entre mulheres comprometidas e mulheres não comprometidas. Teriam as funções de dona de casa e de produzir herdeiros — chegando ao ponto que, se não o conseguisse fazer, o homem podia pedir divorcio da mesma (Curado, 2008). 

Temos, então, a mulher na antiguidade grega que existe apenas em relação ao homem, e para servir o homem. No entanto, apesar de considerada abaixo do homem, de não ser permitida dar a sua opinião e ser limitada às suas capacidades reprodutoras, havia uma única qualidade que os homens destacavam nas mulheres, principalmente na literatura: a beleza.


Mulheres homéricas

Antes de falarmos da representação da mulher sáfica, temos de falar da representação da mulher nos autores contemporâneos de Safo. Vamos abordar especificamente Homero, sendo as suas obras, a Ilíada e a Odisseia, das mais influentes na literatura. As duas grandes representações da mulher presentes nestas obras, são Helena e Penélope, respetivamente. Iremos colocar de lado representações de Deusas como representação da mulher, pois esse é um tema que necessitaria de todo outro trabalho devido às implicações religiosas associadas às mesmas, tornando-as mais do que a representação da mulher comum. 

Penélope, na Odisseia, é rainha de Itaca e mulher de Odisseu. O seu papel é servir de motivação ao herói do épico, sendo o retorno à sua mulher um dos seus objetivos finais. O único desafio que esta mulher enfrenta é o de demonstrar a sua profunda lealdade ao homem com quem casou, mesmo não sabendo da condição do mesmo, esperando 20 anos, arranjando estratagemas para não ter de se casar de novo. Podíamos fazer uma reinterpretação moderna das ações desta rainha e dizer que a mesma tentava permanecer independente, sem outro homem a controlar a sua vida, mas temos de enfrentar a realidade que a Odisseia foi escrita por um homem, logo, a sua intenção foi provavelmente a de representar a mulher perfeita que existe apenas para ser leal ao seu marido e para lhe produzir um filho do qual ele se orgulha.

Já Helena de Troia é uma personagem mais presente na Ilíada, descrita como a mulher mais bela, sendo essa a característica que faz com que ela tenha muitos pretendentes. É raptada por Páris, que faz um acordo com Afrodite, a Deusa da beleza, para ser sua mulher, começando os eventos da guerra de Troia. Temos aqui a representação da mulher bela como prémio. Segundo Johnson & Ryan (2005), a omissão de uma descrição de Helena por Homero terá sido intencional, colocando o foco na reação que esta causa, tanto de admiração como de medo. Aqui temos a representação da beleza feminina como aquilo que dá à mulher o seu valor, que a torna desejável sem ser a sua função — mas, ao mesmo tempo, se a mulher souber dela, é a sua fonte de poder. A beleza é o único poder a que a mulher é permitida fora da relação com o seu marido - uma característica que, mesmo assim, está sempre dependente do olhar dos homens. 


Entre homens

As relações homoeróticas na Grécia antiga eram quase a norma: isto claro, se fosse entre homens. Homens maduros tinham por hábito ter aprendizes rapazes com quem tinham relações de teor sexual, sendo esse tipo de relação tão comum que tinha o seu próprio nome, paiderastia. Aliás, esta relação era considerada um processo para o rapaz tornar-se homem (Johnson & Ryan, 2005). Isto deve-se em parte ao facto de os homens gregos verem as mulheres como abaixo de si e como tendo funções reprodutivas, acreditando que só conseguiam ter uma relação de verdadeira intimidade com outro homem que os compreendesse. Estas relações aconteciam inclusive quando o homem era casado (Johnson & Ryan, 2005).

No entanto, as relações femininas — entre duas mulheres — não eram dadas o mesmo tratamento pelo facto de a mulher ser geralmente constatada ao mesmo nível dos escravos. Eram ocultadas e vistas como uma perversão do ato sexual, pois intimidade e desejo entre duas mulheres teria de ser impossível na perspetiva destes homens — apesar deles mesmos participarem em relações homossexuais. Mas este pensamento foi apenas visto na transição da cultura grega em junção com a romana, devido ao pensamento da mulher como abaixo do homem e a idolatração da cultura dos guerreiros de Esparta.  O único registo que temos de relações entre duas mulheres são os poemas de Safo, e mesmo este registo escasso foi apagado da história. 


Safo, a primeira lésbica

Safo é o nosso melhor exemplo da forma como a mulher que ama outras mulheres é tratada na literatura - tanto com a própria Safo, a sua vida e obstáculos como poeta, como pela forma como os seus textos foram abordados dentro da Grécia antiga, mais tarde destruídos pela Igreja Católica e mal interpretados pela academia. 

Apesar de as tentarem apagar, as mulheres amantes de mulheres existiam, e muitas delas em Lesbos - a mais famosa delas sendo Safo. Aliás, é exatamente desta conexão de Lesbos ao amor entre duas mulheres de onde nasceu o termo “lésbica”, utilizado por muitas mulheres homossexuais. Viveu grande parte da sua vida na cidade de Mitilene em VII a.E.C., numa comunidade rodeada de mulheres onde a cultura - arte, poesia, dança - reinava sob o olhar e culto da Deusa Afrodite (Andrade, 2021). Foi poetisa, os seus poemas sendo de natureza lírica, e terá ensinado poesia e outros conhecimentos importantes às mulheres com quem partilhava a ilha (Andrade, 2021; Balmer, 2018). A vida de Safo é incerta na história, pois teve o horrível destino de nascer mulher num tempo em que mulheres não eram cantadas, registadas - sendo essa possivelmente uma das razões pela qual Safo tem tanta preocupação com o fazer com as mulheres de Lesbos. 

Das suas relações a mais descrita na sua poesia é a com Átis. Átis seria a amante principal de Safo, e a personagem da sua poesia que mais pode ser analisada quanto a representação. Infelizmente, como muitas das outras relações de Safo, nunca teremos todas as palavras que foram cantadas para as analisar completamente, podendo só olhar para fragmentos. 


O esquecimento da mulher sáfica

A poesia de Safo está dividida em fragmentos, compilados por estudiosos da poeta. Este desprezo por Safo começa logo com os seus contemporâneos que teriam tanto desgosto como admiração pela poeta: descreviam-na como masculina pela sua arte literária e acusavam-na de relações vergonhosas com mulheres (Balmer, 2018) mas valorizariam o seu trabalho tanto como Homero, chegando a ser chamada de Décima Musa por Platão (Andrade, 2021).  A discriminação de Safo continua na Roma com poetas como Ovideo, que escreve um poema com Safo a apaixonar-se por um homem, deixando a sua vida de amante de mulheres para trás (Balmer, 2018). É aqui que começa o apagão da identidade de Safo que ama mulheres. A sua poesia é fragmentada no século IV, quando um bispo de Constantinopla ordena a queima da poesia sáfica por esta representar uma mulher louca, cheia de licenciosidade e leveza moral (Greene, 1996). Hoje, temos apenas um poema completo, a Ode a Afrodite (Andrade, 2021). 

Passando à frente para o século XIX, a negação da sexualidade de Safo continua, bem como o reconhecimento da sua arte literária. Segundo Leftowitz (1996), a análise académica inicial a Safo, que interpreta os poemas dela como desviantes da norma e reveladores de problemas psicológicos, é próprio do tratamento académico a escritoras mulheres. A sexualidade de Safo era uma doença a ser ultrapassada ao esta apaixonar-se por um homem, ou a ser negada de todo, chegando ao ponto em que sugerir Safo desejar mulheres sexualmente era respondido com repúdio e indignação (Balmer, 2018).

Assim, as relações românticas e sexuais das mulheres sáficas foram esquecidas, reduzidas a doença ou amizade. Safo e as suas paixões não figuram o conhecimento popular, apesar de muitos poetas masculinos, igualmente perdidos de amores, serem ensinados avidamente. Interpretações feministas de Safo vieram, mas trabalhos exclusivamente sobre o amor Sáfico ainda é algo de que o mundo académico carência.

@probablysininho Respondendo a @shad0w_d0ll Quero começar a ver Sappho appreciation 💐👩‍❤️‍👩 #cultura #booktokportugal #sappho #saphic #lgbt🌈 #tiktokportugal🇵🇹 ♬ Wes Anderson-esque Cute Acoustic - Kenji Ueda


O olhar sáfico

Safo retrata o amor diferentemente de outros poetas clássicos. O amor, o eros, sempre foi representado com uma forma de hierarquia - mas a poetisa grega subverte essa ideia. Normalmente, existiria entre aquele que deseja e aquele que é desejado - o que caça e o que é caçado - mas em Safo, esses papeis são diluídos (Greene, 2002). É uma representação do desejo extraída daquela que a sociedade masculina da altura impunha, própria da sociedade feminina de Mitilene em que a poetisa vivia (Andrade, 2021). 

Um exemplo deste amor sem hierarquia, um amor igual, são os poemas que mencionam Átis, que nos revelam uma relação de Safo, uma relação entre duas mulheres complexas. Segundo Andrade (2021), esta mulher era uma das jovens da comunidade de Safo, a mais amada pela autora, algo concluído da formosura dos poemas dedicados a ela. Átis é amante de Safo, mas não é uma personagem passiva na sua poesia, nem apenas uma figura de desejo ou musa inspiradora. Conseguimos diferenciar Átis da representação usual da amante logo pelo seguinte fragmento:

Eu amava-te há já muito tempo, Átis,

eras pequena ainda, e nem sequer bonita

(Fragmento VIII. na tradução de Eugénio de Andrade)

Segundo Greene (2002), a principal característica de como Safo representa este amor igual é o olhar, que, apesar de existir à semelhança do olhar masculino da literatura dos seus contemporâneos, não é um olhar que quer controlar, nem um que idealiza a mulher. É simplesmente um olhar que vê a mulher na sua plenitude. Temos aqui a origem de algo a que podemos chamar de olhar sáfico, a perspetiva única que a mulher sáfica tem de outras mulheres ao escrevê-las. Podemos identificar como uma primeira característica do olhar sáfico, a igualdade, pela ausência de hierarquia entre as apaixonadas. Neste fragmento, Safo não só expressa um amor duradouro e incondicional, e não um desejo momentâneo e súbito, como expressa que o mesmo não se relaciona ao aspeto físico de Átis. Isto traz outra característica ao olhar sáfico: intimidade, a necessidade de existir um amor profundo e não superficial. 

Uma comparação entre a beleza em Safo e a beleza de Helena é feita por Dubois (1996). Ao contrário de Helena, cuja beleza é a razão de ser desejada por todos os homens como um troféu, Safo ama Átis independente da mesma. Faz da beleza não ser condição para o amor um ponto, reconhecendo a forma como esta era representada como fonte única de valor da mulher. Temos o nosso primeiro exemplo do amor entre duas mulheres escrito por uma mulher representado de forma completamente diferente do amor heterossexual escrito por homens. 

Vemos outro exemplo do olhar da mulher sáfica em outros dois fragmentos, estes em que Safo menciona diretamente a beleza:

Quem é belo é belo de ver, e basta;

mas quem é bom subitamente será belo.

(Fragmento XLIII. traduzido por Eugénio de Andrade)

É importante relembrar que Safo ensinaria as jovens da sua comunidade, e muitos poemas seriam então, ensinamentos (Andrade, 2021). Neste fragmento, temos Safo a abertamente reconhecer que a beleza, que segundo os homens será superficial e um dos determinantes do valor da mulher, não tem real valor comparado à bondade. Safo não só expressa que valoriza a bondade, uma característica de personalidade, nas mulheres que ama acima da beleza superficial, como ensina as jovens à sua volta a fazer o mesmo. Temos outro exemplo do quanto a beleza era desvalorizada por Safo no seguinte fragmento:

A vós, que sois formosas,

meu pensamento que não muda.

(Fragmento XIV. traduzido por Eugénio de Andrade)

Apesar da palavra aqui ser “formosas” e não “belas”, podemos assumir que teria um sentido semelhante, até porque encontramos uma tradução diferente em Balmer (2018) e Barnstone (2011), que utiliza o “beautiful”. Adicionamos aqui a tradução de Barnstone devido a Balmer também traduzir o segundo verso de forma diferente, como “my feelings for you will never falter”, mudando o seu sentido, enquanto que Barnstone tem uma tradução semelhante a Andrade, “my thought is unchangeable”.  É relevante abrir a discussão da tradução ao falar em Safo, pois certas traduções levam a diferentes conotações dos versos da poetisa, que também afetam como a mesma é interpretada. Levando em consideração a tradução de Barnstone e Andrade, neste fragmento Safo admite a formosura ou beleza não afetar o seu pensamento, de novo pintando esta característica que seria supostamente de tanto valor para a mulher como insignificante. 

Temos também presente na personagem de Átis algo a que a mulher não tinha sido atribuído até aos versos de Safo: o poder de escolha. 

Pensar em mim é-te odioso agora

Átis: para Andrómeda voas.

(Fragmento XXX. traduzido por Eugénio Andrade)

Andrómeda seria outra mulher em Lesbos, frequentemente dada como inimiga de Safo por ser a outra mulher que recebia a atenção de Átis (Andrade, 2021). Destacamos este fragmento porque nos revela que Átis não espera para sempre por Safo - chega a ter-lhe rancor, ódio. É uma personagem feminina a quem são permitidos tais sentimentos e a quem é permitida a escolha de uma relação. Contrastamos esta mulher a quem é permitida a escolha com Penelope, que tem de pensar em estratagemas para não se casar de novo, que tem de ficar leal a Odisseu. Átis simplesmente “voa” para outra mulher que ame mais, não existem truques ou desafios, oferecendo outra característica para o olhar sáfico: a independência

A perda do seu amor traz grande dor a Safo, o que nos dá outra perspetiva para a representação do amor sáfico. Conseguimos compreender esta dor através de uma estrofe de um dos fragmentos:

Mas quando errante ela se lembra

de Átis - e o desejo afasta

do coração, pesado de pena - 

de repente grita por nós, e seu segredos

a noite os escuta com mil ouvidos,

e os repete, de vaga em vaga

(Fragmento LXXIV. traduzido por Eugénio de Andrade)

Neste poema, Safo lembra-se de Átis depois de esta a deixar. Relembra as suas características e o que traz com a sua presença, a intimidade que tinha com ela. Está presente um sentimento de saudade e melancolia pela mulher que amava. É essa outra característica que sugerimos para o olhar sáfico: a melancolia. Safo está feliz pela independência de Átis e lembra-se dela sob uma perspetiva positiva e de amor eterno, mas sente pena por a ver longe dela. 

Átis não é a única mulher representada por Safo. A poetisa tinha como seu interesse representar todas as mulheres à sua volta, deixar registada a sua existência e dia-a-dia. Vemos esse registo em poemas como o seguinte:

Cheia brilha a lua, e as raparigas

de pé como à roda de um altar

(Fragmento XIII. traduzido por Eugénio de Andrade)

A celebração feminina é representada em muitos fragmentos de Safo. É destes poemas em que as mulheres de Lesbos cantam ou dançam que inferimos que Lesbos teria uma comunidade de mulheres unidas (Balmer, 2018). Apesar de não ser um amor no sentido do eros poético - o qual podemos questionar se sequer existe em Safo devido à forma como a mesma retrata o amor de forma diferente a outros poetas (Rabinowitz, 2002) - mas no sentido de amor à sua comunidade. Temos então outra característica para a representação do olhar sáfico: comunidade

É pertinente mencionar, antes de passar à conclusão do delineamento das características da mulher sáfica,  o papel que Afrodite e Eros têm na poesia de Safo. Apesar de não irmos aprofundar esse tema pelas mesmas razões que não aprofundamos ao falar de Homero, muitos estudiosos sugerem que estes Deuses do amor representam diferentes conceitos. Skinner (2002) sugere que Afrodite representa o amor pela arte poética, mas Greene (2002) já identifica a conversa que a poeta tem com a Deusa no único poema completo de Safo como uma de aproximação, uma conversa interior em que Safo se torna Afrodite. Já estudiosos como Andrade (2021) ligam a utilização de Afrodite nos poemas exclusivamente ao culto da Deusa, mas aceita a utilização de Eros como uma representação do amor masculino que Safo não compreende e lhe causa desgosto. 

Temos então delineadas, através destes fragmentos, quatro características para o olhar sáfico: igualdade, intimidade, independência, melancolia e comunidade. São estas as características que representam o amor sáfico e através as quais devemos olhar a mulher sáfica na literatura. 


Violetas eternas

Ainda hoje, a literatura que retrata relações entre duas mulheres, a literatura sáfica, reflete a forma como Safo escrevia o amor e a mulher. Não só Safo marca a início da história queer por ela mesma o ser, como marca o início da literatura LGBTQ+ e um símbolo intemporal para mulheres queer. O primeiro exemplo que temos do efeito de Safo na cultura de mulheres sáficas, é a utilização da violeta como código. Como registado na secção de “Gay Symbols” no Alyson Almanac (1989), a violeta começou a ser utilizada por mulheres que tivessem interesse em ter relações românticas ou sexuais com outras mulheres devido a Safo utilizar a flor nos seus poemas: 

Na noite, em vigília,

cantam as raparigas,

cantam a tua amada,

de violetas cingida.

(Fragmento LXVII. traduzido por Eugénio de Andrade)

Sendo que Safo descreve as mulheres que ama cingidas de violetas, e ela própria é descrita a utilizar a flor no cabelo num poema do seu contemporâneo, Alceu, a flor passou a ser um código para mulheres sáficas. Este código foi popularizado devido a um teatro francês utilizar a flor para identificar duas personagens lésbicas, tomando inspiração em Safo, o que fez que as mulheres que se identificassem com as personagens comprassem a flor para utilizar. Tanto a flor como a cor da mesma tornara-se também um símbolo para safismo na literatura, como em A Cor Púrpura por Alice Walker. 

Também as características que identificámos como sendo a representação do olhar sáfico ficaram como um marco da literatura sáfica. De forma geral, relações sáficas na literatura, especificamente a literatura escrita por mulheres, diferem das relações heterossexuais por acontecerem entre duas personagens entre as quais não existe hierarquia implicada, que partilham momentos intimistas em que se deixam conhecer e todos os seus segredos. Existe também a imagem da mulher independente e emancipada como mulher que ama outras mulheres, como a da história do amor não correspondido, todas narrativas presentes em Safo que fazem parte do amor sentido por todas as mulheres sáficas. 


Conclusão

O nosso principal objetivo com esta reflexão de natureza exploratória foi estudar uma Safo pouco trabalhada e cruzá-la com as noções de representação da mulher e pessoas queer e cultura LGBTQ+ para assim delinear um conceito de “olhar sáfico” que possa ser utilizado em análises literárias futuras. Safo é um bom primeiro exercício de análise literária neste tema, tanto por ser dos primeiros exemplos de uma mulher a escrever representação, como por ser mais desafiadora devido à falta de informação e poemas perdidos - que por si, já nos contam muito sobre como alguns desejavam que Safo fosse representada na história, e que a própria Safo poderia ter feito uma representação da mulher à frente do seu tempo na sua poesia.

É evidente que um estudo mais amplo de várias obras sáficas comparadas com os temas identificados no olhar sáfico é necessário, até a fim de perceber se estas histórias partilharem estes temas é devido a serem escritos por mulheres sáficas e estas partilharem do mesmo entendimento do amor, ou se é devido à influência da literatura de Safo.

O principal a reter do contexto cultural literário de Safo é que apesar do esquecimento da mulher sáfica, esta prevalece. Não prevalece por si mesma, mas através de estudiosos e da comunidade que criou que ainda hoje contínua de uma forma ou outra, que vêm partes mal contadas na história e as tentam corrigir e dar de novo voz a uma autora cujas palavras foram queimadas. A violeta ser retomada como símbolo nos tempos modernos não é apenas um símbolo do amor de mulheres por outras mulheres, mas o símbolo da intemporalidade, influência e até renascimento de Safo não só na literatura mas na cultura como um todo. Como disse a própria Safo:

Eu digo: alguns

de mim terão memória.

(Fragmento LXIX. traduzido por Eugénio de Andrade)

Ao tentar delinear esta primeira versão do olhar sáfico, da forma única como mulheres sáficas escrevem o amor, temos Safo na memória, a fim de não perder uma parte importante da história queer. Não esquecer as mulheres que realmente vêm as mulheres por quem se apaixonam, que as tratam como um igual e não as prendem, que relembram o amor com felicidade e melancolia, que são unidas como mulheres e como escritoras do amor, enfim, não esquecer aquelas que tal como Safo, se cingem de violetas. 


Bibliografia


Alyson Publications (1989) “Gay Symbols” in Alyson Almanac; p. 99-98


Andrade, E. (2021) Safo: Poemas e Fragmentos; Assírio e Alvim [tradução]


Balmer, J. (2018) Sappho: Poems and Fragments; Bloodaxe Books [tradução]


Barnstone, W. (2011) The Complete Poems of Sappho; Shambhala Publications [tradução]


Curado, A.L. (2008) Mulheres em Atenas ; Sá da Costa Editora; p.23-26


Dubois, P. (1996) “Sappho and Helen” in Reading Sappho, org. Greene, E.; University of California Press; p.79-81


Greene, E. (1996) “Introduction” in Reading Sappho, org. Greene, E.; University of California Press; p.1-10


Greene, E. (2002) “Subjects, Objects and Erotic Symmetry in Sappho’s Fragments” in Among Women org. Rabinowitz, N.S. & Auanger, L.; University of Texas Press; p. 82-90


Höïjer, B. (2011) “Social Representation Theory” in Nordicom Review, 32, p. 3-16


Johnson, M. & Ryan, T. (2005) Sexuality in Greek and Roman Society and Literature; Routeledge;


Leftowitz, M. R. (1996) “Critical Stereotypes and the Poetry of Sappho” in Reading Sappho, org. Greene, E.; University of California Press; p.26-30


Moscovici, S. (1961) La psychanalise, son image et son publique; Presses Universitaires de France;


Rabinowitz, N. S. (2002) “Introduction” in Among Women org. Rabinowitz, N.S. & Auanger, L.; University of Texas Press; p. 1-20


Skinner, M. B. (2002) “Aphrodite Garlanded: Erôs and Poetic Creativity in Sappho and Nossis” in Among Women org. Rabinowitz, N.S. & Auanger, L.; University of Texas Press; p. 60-68


(o seguinte artigo compõe parte de um trabalho académico realizado no ambito do mestrado de Literatura comparada, aqui editado para publicação no blogue) 

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