Tabletop Roleplaying Games (TTRPGs) são traduzidos literalmente para algo como “Jogos de Interpretação de Papéis à Mesa”, um nome que deixa muito claro o que esta atividade envolve. Por detrás de toda a estética de roupa de fantasia, dados de várias faces coloridas e livros pesados, está o simples ato de interpretar o papel de uma pessoa que não somos, num mundo em que não vivemos. Neste artigo, quero abordar a minha relação com estes jogos narrativos, como me apaixonei por esta atividade e como me ajudou a perceber quem sou. Ancoramos principalmente naquele jogo com o qual quase todos começam: Dungeons & Dragons.
Dungeons & Dragons é um dos mais populares jogos de tabuleiro e essência da cultura nerd que está agora a ter uma ressurgência em Portugal. As redes socias têm provado o seu poder de amplificar e renovar pop culture das gerações anteriores, e este jogo está a ser a mais recente vítima do efeito nostalgia. Desde séries, filmes, vídeos no TikTok, live-plays, grandes eventos e até romances, a cultura nerd portuguesa está a abraçar este cult classic dos jogos de tabuleiro.
Para quem nunca ouviu falar deste jogo: Dungeons & Dragons, também conhecido em português por Masmorras e Dragões ou apenas pela abreviação D&D, é um jogo de tabuleiro que viu a sua origem nos anos 70 e evolui até hoje. Chamar a D&D de "jogo de tabuleiro" pode ser enganoso, porque, de facto, não precisa de um. Este é um jogo baseado em livros e papel - para começar, o Player's Handbook, Monster Manual e Dungeons Master's Guide - cuja premissa básica é um grupo ir numa aventura fantasiosa baseada em imaginação e improvisação. Cada jogador cria uma personagem com base nas regras existentes no livro ou criadas pelo Dungeon Master (DM) - o jogador que tem acesso aos livros e dita o mundo à volta das personagens selecionadas pelos restantes. São dados uma missão, e a história que seguem é um pouco ditada pela vontade do DM, um pouco ditada pela probabilidade de dados e muito ditada pelas suas decisões. Os dados são, provavelmente, o objeto mais icónico associado a D&D, por serem sete, com diferentes lados e diferentes funções. O mais utilizado, no entanto, é o D20, que controla o sucesso das ações dos jogadores e acontecimentos à volta deles.
Lamento que esta seja a forma mais simples de explicar o jogo - a verdade é que D&D é um paradoxo dos jogos narrativos no sentido que é, ao mesmo tempo, incrivelmente simples e complicado. É uma evolução de brincar ao "fingir" no recreio da escola com regras que por vezes são demasiado detalhadas. Aliás, muitos DMs escolhem simplesmente criar as suas regras, o que, por vezes, leva à criação de outros TTRPGs . Até dizer que os jogadores vão numa aventura fantasiosa é falacioso, pois, enquanto que o mundo oficial de D&D é inspirado em clássicos da literatura fantástica, muitos criam histórias de ficção cientifica, fantasia urbana ou até dia-a-dia com as mecânicas do jogo. Este é um jogo que se precisa de jogar para compreender, e recomendo imenso ver os dois grupos de jogos mais populares na comunidade, Critical Role e Dimension 20, para verdadeiramente perceber D&D.
A base da ideia é que é um jogo de criatividade - o objetivo não é ganhar algo, mas sim contar uma história que seja satisfatória para todos sentados à mesa. Jogo desde adolescente e considero um dos hobbies mais libertadores e desenvolvedores de criatividade que tenho. Ajudou-me a desenvolver-me como escritora e como pessoa. Ajuda, principalmente, a explorar o conceito de identidade. É aqui que entra o livro que inspira este artigo: They Came To Slay, um ensaio de Thom James Carter.
Chegaram a matar
Este livro chegou-me às mãos oferecido por uma amizade que introduzi ao mundo de D&D. Tanto eu como esta amizade somos pessoas queer, unides por conversas de storytelling e fantasia. Isso é a essência da temática desde livro. They Came To Slay aborda queerness e D&D - tanto como D&D em si tem representação queer, como a forma como pessoas queer interagem com o jogo e umas com as outras no seu contexto. Chega à conclusão que D&D não só é um ambiente que se abre facilmente a queerness, como um contexto seguro no qual conseguimos explorar a nossa identidade.
O livro é uma lufada de ar fresco. Coleciona aquilo que eu e muitos jogadores queer já pensamos - este é o jogo perfeito. Ser queer sempre passou um pouco pela ideia de performance social e D&D é Performance Social: o Jogo (com Dragões). Ao contrário do que alguns jogadores mais conservadores e tradicionais possam dizer - chatos - D&D não é acerca de matar a maior quantidade de inimigos, fazer mais dinheiro imaginário ou salvar a princesa. D&D é socializar e escapar para um mundo e um corpo que não é nosso mas que nos reflete. Este livro inspira e expira essa ideia, aprofundando como pessoas queer se descobrem e redescobrem num exercício de identidade em forma de jogo.
A obra começa por contextualizar o mundo de D&D e como ele é queer por si só. O autor aponta autores e personagens queer nos livros originais - como um homem gay desenvolveu grande parte dos conceitos que são agora centrais para jogar e desenvolver personagens, ou como aventuras populares como Curse of Strahd (a comunidade queer e os seus vampiros) e Waterdeep: Dragon Heist (que não é apreciado o suficiente, na minha opinião) têm personagens com relações gay e identidades de género não-binárias. Continua a contar a sua própria história e experiência como pessoa queer a jogar - o que me fez pensar que mais pessoas queer precisam de partilhar as suas histórias com este jogo. Não só para desconstruir a ideia que jogos narrativos são um espaço ao qual não pertencemos, como por este ser um jogo que cria e respira comunidade.
Storytelling é comunidade
Nós sempre contámos histórias, tal como sempre fomos gay, trans, lésbicas, bi, não-binárias, e todas as identidades do espetro. Tal como começamos com menos palavras e ferramentas para contar histórias, nem sempre tivemos as palavras que hoje utilizamos para nos descrever. O que quero dizer é que jogos narrativos e identidades queer estão unidos em matrimónio no sentido em que ambos são exercícios de storytelling. Ser uma pessoa LGBTQI+ é carregar, com as nossas identidades e luta diária, todas as histórias das pessoas que vieram antes de nós. É tentar reencontrar as histórias perdidas e apagadas, e todos os dias medir uma performance bem considerada para o mundo em que fomos colocados, cheio de limitações. Uma pessoa queer está quase que predisposta para um jogo de RolePlay, porque tem de interpretar papéis que não correspondem a quem é todos os dias. No entanto, acaba por ser com jogos narrativos que muitas pessoas queer - eu incluíde - acabam por poder explorar a pessoa que querem ser fora do armário. Eu própria vivi isto, e quero falar das personagens que utilizei para explorar quem podia ser fora do armário. Jogos narrativos permitem a uma pessoa que não pode ser abertamente ela mesma, ou que não tem a certeza do que sequer é, a explorar esse conceito de forma segura durante algumas horas.
Claro, é preciso ter um bom grupo, uma comunidade que nos apoia. Confesso que já tive experiências negativas com o jogo. Já fui bloqueada, limitada, usada, sexualizada e estereotipada. No entanto, continuei a agarrar com toda a força a este conceito de jogos narrativos. Não digo que ainda não tenho medo todos os dias dessas experiências negativas acontecerem outra vez - e até hoje, como alguém que mestra em eventos e loja local, comentários preconceituosos ainda existem. Foi uma das razões pelas quais demorei tanto a entrosar-me verdadeiramente na comunidade de jogos narrativos. Medo.
Hoje, consigo suspirar de alívio. Encontrei uma comunidade que abraça queerness e inclusão. Tive sorte, no fim do dia, mas ao mesmo tempo julgo ter atraído a energia com que avancei - só comecei a participar em eventos depois de mestrar na minha loja local com o objetivo de criar um espaço seguro para a jogadora que um dia fui. Descobri jogos como Daggerheart, que deixa a queerness do mundo implícita no seu livro, e Thirsty Sword Lesbians, que é desavergonhadamente gay. Jogo com várias pessoas a assumir identidades diferentes, e nunca me fizeram sentir excluída como naquela primeira vez que joguei. Não consigo listar aqui todas as pessoas que estão lentamente a sarar a ferida da menina que jogou pela primeira vez e foi mandada abaixo - mas se forem a um evento como o Rolisboa, de certo hão de encontrar todas por lá. Esse evento foi para mim um ponto de viragem em que me apercebi que existia todo um conjunto de pessoas que partilhava do meu entusiasmo por criar histórias improvisadas e espaços seguros para todas as vozes serem ouvidas.
Jogos narrativos só contam boas histórias quando elas são feitas em comunidade, logo, vão sempre gerar um sentido de união que tantas pessoas queer precisam.
Fichas de Personagem e Identidade
Não é apenas pelo sentido de comunidade que uma pessoa queer se pode sentir em casa entre os jogos narrativos. Como já mencionei com o livro They Came to Slay, a própria atividade de criar uma nova identidade é um exercício natural a pessoas queer. Aliás, até vou ao ponto de equiparar interpretar personagens em jogos narrativos a fazer drag. Muitas pessoas LGBTQI+ exploram a sua identidade através de performance drag, que envolve interpretar uma personagem exagerada de forma a viver uma parte mais autêntica da nossa identidade queer e parodiar as normas sociais - uma personagem em jogos narrativos é quase que a versão introvertida desta performance. Temos jogos ao vivo como Dungeons and Drag Queens que reconhecem isto e que já tiveram um tributo português que me encheu de inspiração para falar mais abertamente de quem sou. Não sou a melhor voz para desenvolver este tema, mas a conexão está lá, porque queerness sempre se deu às artes da performance teatral, e jogos narrativos fazem parte das mesmas.
Quando criamos uma personagem num TTRPG, puxamos por uma pequena parte de nós. Uma que não tem os limites do corpo ou mundo em que vivemos - isso é libertador. Deixo aqui algumas das personagens de D&D que me ajudaram a descobrir-me como lésbica e não-binárie:
Faylin Axelove
Esta foi a minha primeira personagem, de uma Sininho adolescente e a experimentar o hobby pela primeira vez. Faylin é uma Dwarf Cleric, que usa uma armadura e túnicas brancas e douradas a contrastar com os seus longos cabelos e barbas cor de rosa. Adorava a ideia das mulheres anão terem barba no Senhor dos Anéis, e queria muito pintar o meu cabelo de cor de rosa. Foi a minha primeira forma de tentar expressar a minha não-binaridade lésbica, uma que infelizmente não foi bem recebida - ela acabou silenciada, sem barba e com um corpo objetificado. A Faylin veio para o armário comigo durante anos, e apesar de ter sido distorcida e tido vida curta, a forma como a idealizei originalmente ficou para sempre no meu coração. Adorava jogar com ela outra vez um dia, desta vez, como era suposto ser.
Claro, não fica perdido em mim o facto de ter crescido para me tornar uma figura sacerdotal com cabelo cor de rosa (e se conseguisse crescer uma barba farta, garanto que tinha uma).
Riesentod Gubleth
O Riesentod também foi a minha primeira experiência completamente positiva com D&D. Tive um DM que me permitiu não só jogar este estereotipo de masculinidade, mas compreendeu que o mesmo fazia parte da minha jornada de autodescoberta. Por causa do Rie, explorei a identidade butch e transmasculina, e foi com este DM que comprei as minhas primeiras roupas da secção "de homem" para ver se gostava de ver o Rie ao espelho. Hoje não me identifico com essas identidades, mas foi por passar por elas que encontrei as que hoje me cabem. Foi por ter sido aceite como Rie que hoje me aceito como Rosa.
O meu lado de lésbica femme também estava escondido algures nele: tinha uns quantos níveis de Druida que surpreendiam com o look do personagem e um subplot de estar apaixonado por uma Drow.
Lynch Tombloom
Com a Lynch descobri o meu amor por jogar como butch dramática, bem como cruzar o meu interesse por religião com a minha queerness. Também adorava jogar outra vez com uma versão atualizada e menos zangada dela, porque no fim do dia, esta personagem foi um grande desabafo, um grito que tinha sido abafado pelas portas do armário até ao momento.
Barbara, A Barda
Ela não tem imensa história porque não foi interpretada por assim dizer, mas como é obvio, escolhi romancear a Karlach, e curou algo em mim ser uma mulher musculada feminina apaixonada por outra mulher musculada. Apesar de ser reflexão para outro artigo, o próprio reconhecimento que este jogo tem da comunidade queer que gosta de D&D fala alto sobre a relação entre ambas culturas.
Um dia também gostava de experimentar jogar com ela fora do meio digital, mas por enquanto ela deixa-me a questão da relação estranha que o meu género tem com Orcs.
Apenas recentemente comecei a criar personagens com que jogar outra vez - quando fui selecionada para um liveplay no Rolisboa. Existe muito a dizer sobre essas personagens também, mas deixo para uma reflexão futura - porque esta publicação é apenas o inicio desta conversa.
Mestrar e criar um espaço seguro
TTRPGs não passa apenas por interpretar personagens como jogadora, mas também como Mestre de Jogo. Não consigo listar aqui os inúmeros NPCs que já interpretei (até porque não me lembro de todos). No entanto, ser queer e mestrar é criar mundos que refletem a nossa queerness. Na campanha que corro com amizades, que tem o clássico ambiente medieval fantasioso de D&D, a primeira personagem que eles encontraram era apenas implícita ser uma mulher trans lésbica, mas era suposto ser uma personagem passageira que os introduzia ao mundo. É um fator importante que estas amizades são todas pessoas LGBTQI+ em diversos lados do espetro, mas todos eles ficaram tão entusiasmados com finalmente ter uma personagem queer num jogo, que centraram o inicio da história nela. De repente, uma história que podia ter sido lugar-comum estava cheio de personagens LGBTQI+ e uma intriga de relações sáficas, aceitação e terapia de família. Escrever e viver histórias de vozes diferentes da minha faz-me pesquisar e tornar mais ciente das dificuldades que cada um passa e compreender a interseccionalidade de questões sociais. Acredito piamente que todos teriam mais empatia e sentido de crítica social se tentassem jogar um jogo narrativo num mundo com tanta diversidade como o nosso.
Continuo a mestrar essa campanha, e os meus jogadores (eu também, em parte) continuam a colocar lésbicas por todo o lado . Tenho uma campanha de Thirsty Sword Lesbians em que as sessões terminam sempre cheias de queer joy. Mestro one-shots na minha loja local, Weatherlight, que é abertamente queer friendly. A primeira vez que mestrei tive uma jogadora a querer interpretar um homem trans, e a história acabou com uma metáfora acerca de transformação. Ainda hoje tenho jogadores que aparecem nas minhas sessões por verem que sou abertamente queer, perdendo o medo que têm de ser possivelmente vítimas de preconceito. Criei um espaço acolhedor para todos menos para aqueles iguais aos que colocaram a Faylin no armário. Comecei a iniciativa Dados de Venus, para pessoas sáficas jogarem vários TTRPGs cobertos de referências a cultura lésbica. Todas as semanas tenho mensagens sobre como pessoas se sentem mais livres num espaço que eu também ocupo, e não há nada mais a que eu me queira dedicar nesta vida sem ser passar esse sentimento.
Jogos narrativos deixam-me com orgulho de quem sou. Vou continuar a jogar, mestrar e viver todas as identidades que tenho dentro de mim.

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